Há alguns dias, precisei trocar a bateria de uma caixa de som portátil. Nascido em 1981, sou da geração que cresceu valorizando manuais impressos, cheios de diagramas e esquemas elétricos. Sempre gostei desse tipo de material, que ajuda a entender o funcionamento dos aparelhos e, com isso, fazer pequenos consertos ou apenas saciar a curiosidade.
Entrei no site do fabricante em busca do manual técnico, aquele que mostra a estrutura interna do dispositivo e, para minha surpresa, não estava disponível. Uma pena!
Foi aí que recorri ao YouTube. Encontrei vários vídeos de pessoas mostrando exatamente como fazer a troca da bateria. Segui um dos tutoriais, que resumiu cerca de uma hora de trabalho em apenas oito minutos. Fui pausando o vídeo conforme necessário e, em menos de meia hora, tudo estava resolvido.
Essa experiência me fez refletir sobre como a tecnologia vem mudando nossos hábitos e a forma como buscamos conhecimento. Hoje, os vídeos estão assumindo o lugar dos textos e das imagens estáticas, criando um jeito peculiar de aprender e se comunicar. De fato, é muito mais fácil aprender algo vendo alguém fazê-lo na prática. Não é à toa que vídeos ensinando maquiagem, receitas, consertos, exercícios, programação e até artes marciais fazem tanto sucesso. São conteúdos rápidos, diretos e com uma linguagem acessível.
Outro ponto interessante é como os vídeos quebraram o antigo monopólio da TV, dos jornais e dos livros. Hoje, qualquer pessoa com experiência e domínio sobre um assunto pode criar conteúdo relevante e se destacar — mesmo sem ter fama ou vínculo com grandes mídias. Muitos desses criadores, os chamados "influencers", ganham dinheiro com monetização e patrocínios, muitas vezes faturando alto.
Os formatos dos vídeos são variados: desde lives com mais de uma hora até os populares "shorts" com menos de trinta segundos. Mesmo sendo curtos, os “shorts” se destacam pelo uso criativo de edição, cortes rápidos e efeitos visuais. Coisas que antes pareciam coisa de cinema estão agora ao alcance de qualquer pessoa com um celular e alguns aplicativos.
Claro, essa nova era também traz uma série de desafios. Quem não tem facilidade com ferramentas de vídeo e, principalmente, não se expressa visual e verbalmente acaba ficando para trás. Mesmo com o apoio de inteligência artificial (IA), editar vídeo ainda exige habilidade, tempo e criatividade. Além disso, a desinformação se tornou um problema ainda maior, já que vídeos falsos feitos por IA estão cada vez mais realistas e difíceis de identificar.
Mesmo assim, o texto ainda é essencial. Ele é a base de muitos conteúdos — um bom vídeo geralmente começa com um bom roteiro. E cada vez mais os vídeos vêm acompanhados de legendas e explicações escritas, mostrando que texto e imagem podem e devem caminhar juntos.
Indo além, de acordo com a neurocientista Maryanne Wolf, autora do livro O cérebro no mundo digital, nossa forma de ler molda o cérebro. Como hoje lemos de maneira rápida e superficial, devido aos hábitos digitais, corremos o risco de perder a capacidade de compreender textos mais complexos, como contratos, livros, artigos científicos ou reportagens longas.
De fato, estamos vivendo uma grande transformação na forma como nos comunicamos e nos expressamos. E, como toda mudança profunda, ela traz oportunidades, mas também exige responsabilidade. No caso do Brasil, essa mudança é ainda mais complexa e delicada, pois o país entrou na era digital antes mesmo de consolidar uma cultura de leitura. E isso é muito sério!
Prof. Me. Jorge Luís Gregório
Docente e coordenador do curso Superior em Tecnologia em Análise e Desenvolvimento de Sistemas - Fatec Jales