Os discursos nascem de outros discursos e, certamente, por diversos motivos, há sempre alguém mapeando-os, como se estivesse pronto para flagrar as falhas. E agora, em período eleitoral, quantos discursos não são aproveitados para criar os memes, os rótulos e, até mesmo, o perfil de campanha, tanto de defesa quanto de acusação!
É muito interessante observar como vão sendo construídas as estratégias de divulgação e de consolidação da marca de cada candidato: discursos negativos tentam ser anulados; discursos positivos que obtiveram um feedback favorável nas redes sociais, paralelamente, são “emoldurados” para que desfilem nas falas dos presidenciáveis.
E não basta: os discursos, em particular aqueles que mais repercutem nas redes sociais, também são trazidos/recuperados pelos jornalistas que conduzem as sabatinas e os debates, constituindo as perguntas dirigidas aos entrevistados. São verdadeiras pérolas revisitadas nos debates, que acabam consagradas nos meios digitais.
Interessante é que, muitas vezes, a negação não pode ser refutada porque o discurso dito, lá no passado (talvez não tão distante), foi gravado, registrado, tornando mais difícil anulá-lo. Nesse caso, surge uma “festa para a oposição”. Não se pode negar o contexto, ou seja, as condições em que o discurso foi produzido. E, nem sempre, ele é trazido em sua totalidade, daí, a mão de obra para se explicar torna-se bastante penosa para muitos. Os recortes podem ser perigosos porque podem transformar as inverdades em verdades e vice-versa.
O psicólogo Nicholas DiFonzo (2009) é especialista no estudo de rumores. Autor do livro “O Poder dos Boatos”, ele apresenta três classificações a respeito dos discursos: alvissareiros, alarmistas e revanchistas. Os “boatos alvissareiros, com frequência, cristalizam fantasias, expectativas, sonhos e desejos de um grupo”. Boatos alarmistas alertam para um “desfecho catastrófico”, e os boatos revanchistas são “alimentados pelo ódio e servem para provocar a divisão entre as pessoas”. Pensemos, portanto, no momento em que estamos vivendo e em como esses boatos têm circulado pelas nossas redes sociais.
Na ânsia pela legibilidade, as palavras, muitas vezes, são “soltas” e carregadas de ideologias que se apresentam sob a forma de dados, nem sempre verídicos; promessas improváveis de funcionalidades; fatos omitidos ou distorcidos; enfim, um “brincar” com as palavras dentro de um contexto de extrema responsabilidade.
Se olharmos para esse cenário sem associá-lo ao futuro do nosso país, seria até cômico, mas não é bem assim... Acompanhar os discursos, compará-los e situá-los nos diferentes cenários é nosso dever como cidadão, mesmo que tenhamos de lidar com uma enxurrada de informações.
Profa. Ma. Alessandra Manoel Porto – Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
Docente da Fatec Jales – Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
