Nos últimos anos, o debate sobre o impacto da Inteligência Artificial (IA) no mercado de trabalho esteve em torno dos chatbots, assistentes virtuais e tecnologias de IA generativa como o ChatGPT. Entretanto, uma revolução silenciosa, iniciada antes mesmo dessas tecnologias, está em curso, prometendo ser ainda mais surpreendente. Trata-se da ascensão de dois conceitos: IA Física e IA Embutida. Essas tecnologias extrapolam o mundo digital e atuam no espaço físico, assumindo funções tradicionalmente humanas de forma cada vez mais autônoma e mais eficiente.
De fato, uma das definições de IA é o estudo e projeto de agentes inteligentes. Um agente inteligente é uma entidade, física ou virtual, capaz de perceber o ambiente onde ela está inserida por meio de sensores. Após a percepção, ela deve tomar atitudes que maximizam sua chance de sucesso em uma determinada tarefa. Essa tarefa é executada por meio de atuadores, ou seja, componentes que atuam diretamente no local onde ela se encontra.
Tomando essas características como ponto de partida, entendo que a IA física e a IA embutida não apenas são capazes de complementar a IA generativa, mas são, na verdade, uma nova forma de automação em massa, com aplicações diretas em diversos setores, como agricultura, saúde, varejo, construção civil, entre outros. Vejamos.
Com a IA física, somos capazes de criar modelos que representam o mundo físico, diferentemente dos chatbots, que operam apenas no mundo digital, ou seja, software. Assim, essa tecnologia é capaz de simular a realidade com precisão, aplicando conhecimentos de física, engenharia e matemática para prever comportamentos e tomar decisões estratégicas. Um exemplo prático está na criação de gêmeos digitais: réplicas virtuais de fábricas, cidades ou até corpos humanos, usadas para simular cenários, prever falhas e otimizar processos. A IA física não precisa responder instantaneamente, mas oferece análises sofisticadas e altamente precisas, baseadas em grandes volumes de dados (big data).
Por sua vez, a IA embutida (ou também IA incorporada) leva essa inteligência para dentro de máquinas e dispositivos com corpo físico, como robôs, drones, carros autônomos e braços cirúrgicos. Ela é capaz de combinar sensores de percepção (como câmeras e microfones) com mecanismos de tomada de decisão instantânea, permitindo que esses equipamentos interajam com o mundo real em tempo real. Essa tecnologia já é aplicada em robôs de limpeza, estoquistas automatizados e veículos que dirigem sozinhos. Ao operar dentro de prazos extremamente curtos e ambientes imprevisíveis, a IA embutida representa uma grande evolução na automação prática: não é apenas saber o que fazer, mas fazer – de forma rápida e segura. Empresas como a gigante Amazon já utilizam milhares de robôs em suas operações logísticas. Em outros setores, máquinas com IA embutida estão colhendo frutas, limpando prédios, entregando pacotes e até auxiliando em cirurgias.
Nesse sentido, o risco é claro: à medida que mais tarefas humanas se tornam automatizáveis, cresce a possibilidade de substituição em massa da mão de obra humana por máquinas, inclusive naquelas funções antes consideradas “seguras” pela necessidade de presença e julgamento humano. Se antes a automação afetava principalmente cargos administrativos e repetitivos, agora ela chega a funções físicas e operacionais. E isso é preocupante, afinal de contas, a maior parte da força de trabalho atua em funções dessa natureza.
O historiador Yuval Noah Arari, autor do best-seller Homo Deus – uma breve história do amanhã, já alertou que a IA pode tornar o ser humano irrelevante economicamente, visto que a consciência está se desacoplando da consciência. E isso tem impactos incalculáveis em termos de sociedade. De fato, precisamos repensar políticas públicas, educação, modelos econômicos e direitos trabalhistas em uma era em que as máquinas não apenas pensam, mas sentem, veem e agem.
Prof. Me. Jorge Luís Gregório
Docente e coordenador do curso superior de Tecnologia em Análise e Desenvolvimento de Sistemas - Fatec Jales