O mundo reorganiza suas cadeias de energia em meio a conflitos no Oriente Médio e no Leste Europeu, e o Brasil observa esse tabuleiro de um lugar raro: o de quem tem opções. Somos exportadores relevantes de petróleo e donos de uma das matrizes elétricas mais limpas do planeta — em 2024, 88,2% da eletricidade veio de fontes renováveis, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE).
Essa combinação foi tema nas Reuniões de Primavera do Fundo Monetário Internacional (FMI), em abril. Segundo analistas presentes, o Brasil foi descrito como um "porto seguro" energético: região distante das zonas de confronto direto, exportadora líquida de energia, num momento em que isso vale ouro.
Mas ter os ativos certos não é o mesmo que ter uma estratégia. Especialistas apontam que o país ainda expande a produção de petróleo sem conciliar plenamente essa agenda com a transição energética. O risco é depender demais da renda do petróleo justamente quando o mundo discute reduzir seu uso.
É aqui que o agronegócio entra como peça central, e não coadjuvante. A maior parte da vantagem energética brasileira nasce do campo: o etanol, que transformou o interior paulista décadas atrás, é biocombustível antes de qualquer discurso ambiental estar em moda. Cana, soja e resíduos agropecuários abrem caminho para rotas pouco exploradas, como o biometano — gás produzido a partir da vinhaça e de resíduos agroindustriais.
O exemplo já é concreto: em 2025, Presidente Prudente, no Oeste Paulista, tornou-se o primeiro município brasileiro abastecido integralmente com biometano, produzido pela Usina Cocal e distribuído pela Necta Gás Natural, com investimento de R$ 12 milhões. Transformar resíduo agrícola em energia, aqui na nossa região, já deixou de ser projeto de futuro.
A "guerra do petróleo" lá fora é, também, uma chance de replicar esse tipo de iniciativa e agregar valor à produção agropecuária local: não só exportar a matéria-prima, mas transformar resíduo em energia e competitividade para o produtor. A pergunta é se o agronegócio brasileiro vai captar esse valor com tecnologia e gestão, ou se vai, mais uma vez, exportar a vantagem bruta.
É nesse ponto que a formação técnica ganha peso: profissionais que entendam de produção, gestão e tecnologia ao mesmo tempo ajudam a transformar potencial em vantagem duradoura. O Brasil pode ocupar um lugar estratégico nesse tabuleiro energético — mas essa posição não vem de graça. O campo já mostrou que sabe produzir alimento; falta mostrar que sabe produzir energia com a mesma competência.
Professora Dra. Adriana de Souza Colombo
Coordenadora do curso de Agronegócio da Fatec Jales
Vice-presidente do Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural de Jales
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